Mulher, encontrei as suas fotos 3x4 caídas no chão, ainda dentro daquele envelopinho que o próprio fotógrafo lhe entregou assim que concluiu o serviço. Pareceu-me que todas as fotos estavam lá, ou seja, que você não chegou a usar nenhuma delas. Presumo que tenham sido tiradas há pouco tempo e que você esteja precisando delas parar tirar um documento que, definitivamente, exige um retrato seu. Não acredito que tenha jogado fora as fotos por não gostar do resultado - se me permite dizer, eu achei que ficaram boas. Então é provável que você sinta a falta delas e comece a procurar por toda a parte, mas não vai conseguir encontrar, e provavelmente irá lhe aborrecer bastante a ideia de ter que tirá-las outra vez. Acredite, se houvesse algum tipo de identificação eu faria o possível para devolvê-las, mas assim, só com o seu rosto, fica um bocado difícil para mim.
Espero que me perdoe por ter retirado uma das fotos e levado comigo. Não sei bem o que pretendia com isso, talvez brincar um pouco de imaginar quem era a pessoa que havia perdido essas fotos. Vou arriscar uma idade e, se por acaso eu errar, espero que você não se ofenda: 30 anos? Vejo que se preparou para tirar essas fotos, e fez bem, porque não tem nada pior do que um 3x4 que a gente não gosta. Está bonita, a maquiagem parece adequada, o cabelo está bem penteado. A camisa é mais escura, como convém às fotos de fundo branco. Há um leve sorriso, nada exagerado. Prefere ser chamada de morena ou negra? Para o IBGE talvez fosse parda - enfim: um tom de pele escuro o bastante para já ter sido vítima de racismo. Também me pareceu - e não vai nisso a menor crítica - que está um pouco acima do peso, estou certo? Não é muito mais do que isso o que consigo apurar através de um simples 3x4 e confesso que já me intrometi mais do que devia.
Em todo caso, fica aqui o meu desejo de que as novas fotos que você irá tirar sejam tão boas quanto essas que encontrei. Mas só não me vá perder de novo, hein?
Cachorro vem correndo
Estou eu caminhando pelas entrequadras de Brasília quando avisto ao longe alguém dando uma volta com o seu cachorro. Não demora muito até que o cachorro também me aviste e, aproveitando que está sem coleira, comece a correr na minha direção.
A primeira coisa que eu sinto é medo. Imagino que aquele cachorro não pode ter outro objetivo para correr daquela maneira que não o de me morder. Curiosamente, nunca me ocorreu fugir. Fico paralisado à sua espera. Provavelmente eu acredito ser capaz de perceber o momento exato em que ele tentará me morder e então saberei como me defender. Darei chutes, desviarei a boca dele com a minha perna. Para tudo isso vou me preparando enquanto ele chega mais perto.
É claro que nada disso acontece. O cachorro me alcança e começa a saltar ao meu lado, até resolver pular também em cima de mim. Ainda não estou totalmente convencido de que não irá me atacar e pouco retribuo às suas brincadeiras. O dono vem correndo atrás, dando ordens para que ele não pule. Chega a apelar à razão do cachorro: “Ele não quer brincar com você!”. Por fim, toma o controle do animal e pede desculpas a mim pelo constrangimento causado.
E só então é que o sangue volta a circular.