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Henrique Fendrich

rikerichgmail.com

Henrique Fendrich (Crônica de São Bento)

Jornalista são-bentense residindo em Brasília/DF


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Comecei a ouvir os anjos cantarem

Quarta, 04 de dezembro de 2013


Atribuiu-se a Jim Wilson a experiência de gravar e depois desacelerar o canto dos grilos. Por trás daquele insistente cri-cri ficamos espantados ao encontrar um canto angelical – depois descobrimos que o som não vinha propriamente dos grilos. Mas eu fiquei imaginando que tipo de coisas poderia descobrir se também resolvesse desacelerar os meus gestos, prestar atenção em tudo o que faço automaticamente. Ou ainda: que belezas insuspeitas seriam reveladas caso eu conseguisse captar os movimentos que outros fazem em meu favor. Sou, na verdade, bastante ligeiro para aproveitar aquilo que me convém, e com isso não dou a devida importância aos esforços que me beneficiam. É bem possível que eu, na minha ingratidão, tenha deixado passar muitos cantos angelicais.

Em minha defesa, posso alegar que sou o tempo inteiro estimulado à velocidade – da comida que eu como à conexão da minha Internet. Faço muitas coisas rápidas porque tenho muitas coisas a fazer. Aprendi que esperar nunca é bom negócio. Nessa correria toda, seria muito pouco provável que eu percebesse as sutis movimentações que dão encanto ao cotidiano. Mas como eu ainda desejasse ouvir um pouco do canto escondido dos grilos à minha volta, pensei em escrever uma carta.

Ora, uma carta, necessariamente, não pode tratar de assuntos urgentes. Nela se escreve coisas que, com sorte, serão lidas pelo destinatário apenas na outra semana. É nessas circunstâncias que consigo dizer aquilo que nunca havia tido tempo de dizer, tão espremido estava pelas minhas obrigações diárias. Ao me desacelerar dessa maneira, posso refletir sobre aquilo que me une à pessoa que irá receber a minha carta. Considero a vida que levamos, dou conselhos, peço outros, relembro passagens em comum e percebo como aquela pessoa é importante para mim. Quanto manifesto o meu afeto – coisa estranha! – começo a ouvir os anjos cantarem.

Não é apenas o Pinóquio, portanto, que os grilos podem chamar à consciência.

 

Botei a mão no bolso...

Eu pensava na crueldade dos restaurantes por quilo, que limitam financeiramente a satisfação plena dos estômagos, enquanto decidia se uma colherada a mais de arroz caberia no meu orçamento. Naquele dia eu estava especialmente esbanjador, então não apenas coloquei mais arroz como também acrescentei uma rodela de tomate. E me encaminhei para a balança, que acusou R$ 11.

O pagamento devia ser feito na hora, então botei a mão no bolso direito da calça, mas não encontrei dinheiro. Passei para o esquerdo e havia apenas umas poucas moedas de R$ 1. Restavam os bolsos traseiros, absolutamente vazios. Em pânico, constatei que não tinha como pagar.

Comecei a pensar no que fazer. Correr para o banheiro? Simular um ataque epiléptico? Oferecer-me para lavar os pratos? Acabei confessando: “Acho que perdi o meu dinheiro”. O caixa olhou para mim, me avaliou, e tirou o prato de cima da balança. Eu sentei-me e retomei a busca pelo dinheiro, sem sucesso. Dali a pouco vieram me trazer o prato. O caixa estava me oferecendo. Agradecido, entreguei-lhe minhas poucas moedas. E assim fiquei também sem o dinheiro da passagem para voltar. Vim a pé, caminhando por mais de uma hora. Fazendo a digestão.



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