Henrique Fendrich (Crônica de São Bento)
Jornalista são-bentense residindo em Brasília/DF
Ainda estamos em 1882 e acompanhamos a visita do alemão Hugo Zöller a São Bento. Agora ele consulta algumas estatísticas sobre a nossa colônia. Três anos antes, tínhamos 4.275 habitantes. Um terço dos moradores de Joinville na época. Os moradores de São Bento, em geral lavradores, sofriam com más colheitas, mas Zöller podia enxergar inúmeros campos de cereais com grãos frescos despontando. Em menos de 10 anos, nossos imigrantes já haviam derrubado grande parte das florestas. A terra estava entulhada de tocos de árvores – tanto que os colonos não podiam usar arados.
O viajante achou muito bonitas as casas dos camponeses. E não deixou de reparar no terreno ondulado da Colônia e nas montanhas de 100 a 150 metros. Zöller começou a refletir então sobre a situação desses imigrantes de São Bento. Primeiro, se dispunham a uma travessia marítima cheia de sofrimentos. Ao chegar, precisavam enfrentar todo tipo de dificuldade, especialmente quando viam que a sua propriedade não passava ainda de um trecho de floresta. Eram tomados então pelo desespero! Esse sentimento acompanhava os imigrantes durante todo o primeiro ano.
Zöller avalia que poucos colonos – talvez nenhum – não se arrependiam da imigração quando se viam diante das suas graves consequências nos primeiros tempos. E as mulheres? Sofrem mais ainda, diz o viajante. Estão mais ligadas afetivamente à antiga pátria. E, como normalmente acontece, quem cai antes são os homens. Muitos se entregam então à bebida. Depois de um ano, já aceitam melhor o seu destino. Mais dois anos e conseguem comprar um cavalo, uma vaca, alguns porcos e algumas galinhas.
E esse pequeno aumento de bem-estar já é suficiente para que os colonos mais antigos de São Bento declarem: esta é a melhor colônia de todas. Zöller fica espantado com essas declarações. Afinal, ele está vendo a realidade de São Bento. Para ele, esses imigrantes têm o mesmo grau de satisfação de um soldado ou de um marujo.
Voltar para a Europa
Outros viajantes estiveram em colônias na Austrália e no Canadá e acharam que nelas os alemães iam sofrer um retrocesso temporário de civilização. Não é uma ideia politicamente correta. Em todo caso, Zöller achou que em colônias como São Bento isso não estava acontecendo. Não percebeu nenhum retrocesso, pelo contrário. Saltava à vista um estado despertado moral e intelectual e uma evidente amabilidade pessoal. Ele estava dizendo, de forma mais bonita, que eles não tinham virado brasileiros.
Em relação à saúde dos imigrantes, Zöller ouviu do Dr. Engelke, de Joinville, que muitas surgiam conforme o ânimo do colono. Os passageiros de um navio, por exemplo, chegavam à terra com diarreias de sangue. E sofriam ainda de saudades. Estavam tão insatisfeitos que recusavam qualquer tratamento, por melhor que fosse.
Apenas uma coisa era capaz de motivá-los a enfrentar o trabalho que tinham pela frente: a esperança de que, em um ano, conseguissem pagar sua passagem de volta para a Europa. Nessa expectativa, até a doença sumia.
E mais não digo nesta semana, pois o venerando Pai Fritz, alegando cansaço, interrompeu a transcrição mental desta história. Assim que o ligarmos numa tomada, retomamos o assunto.