Henrique Fendrich (Crônica de São Bento)
Jornalista são-bentense residindo em Brasília/DF
Soube por acaso que Pai Fritz, o único são-bentense capaz de prever o passado, esteve aqui em Brasília. “Caso Cachoeira”, me confessou, meio enigmático. Fomos tomar um iogurte, e eu então aproveitei para desabafar com ele. Aquele homem já havia me ajudado a entrevistar o imigrante Josef Zipperer e a acompanhar o Facebook de Jorge Zipperer, falecido há quase 70 anos. Mas era justamente esse o problema. “Chega de falar nos Zipperer, Pai Fritz! Será possível que não podemos contar a história de São Bento do Sul puxando por alguma outra ponta?”.
Esse era o meu drama, mas senti que Pai Fritz não dava a devida atenção. Mexia em seu iPad, e então me estendeu o aparelho. “Carolina Dieckmann”, explicou. Mal pude acreditar. Ali estavam todas aquelas fotos que vazaram. “Então foi você que invadiu o computador dela, Pai Fritz?”. Ele sentiu-se ofendido com a insinuação. Disse que não invadiu nada. Explicou que aquelas fotos que eu estava vendo não existiam mais. Isto é, eram as mesmas que foram divulgadas na internet e depois retiradas. “Eu psicofotografei todas elas”, contou. Pai Fritz é o único homem capaz de psicografar imagens reais, e devo dizer que são em alta definição.
Perguntei se poderia fazer o mesmo com algum registro antigo de São Bento. “Acho que tenho algo que vai te interessar”. E então psicofotografou um velho livro em alemão, cuja história inédita eu resumo a seguir.
História inédita de São Bento
Estamos no inverno de 1882. O viajante alemão Hugo Zöller, 30 anos, está visitando São Bento. Ele trabalha para o jornal “Kölnische Zeitung”. Há três anos viaja pelo mundo, e agora está na América do Sul. Mais precisamente, em São Bento, na casa do cervejeiro Otto Krause. Nela Zöller diz receber um tratamento excelente, como em todas as colônias alemãs que já visitou. Está frio, muito frio. É verdade que o viajante já enfrentou temperaturas negativas na Alemanha. Coisa de 25 graus abaixo de zero. Mesmo assim, Zöller diz que nunca sentiu tanto frio como em São Bento.
De manhã cedo, ele encontrava uma camada de gelo sobre águas paradas, nos vidros da janela, nos telhados e no próprio chão. Nos dias seguintes, quando fosse a Joinville, Zöller notaria uma diferença: por lá, o agricultor teme a friagem, que causa danos para o café, a cana-de-açúcar e os vegetais tropicais. Mas ali onde ele estava, em São Bento, a friagem era saudada com alegria. Vinha a calhar com as espécies europeias que se plantava na cidade.
Nos dias seguintes, Zöller acompanhou o agrimensor Albert Kröhne em cavalgadas por São Bento. Achou curioso a gente trabalhando no campo em trajes bávaros – trajes que, segundo ele, não eram renovados quando desgastados. E mais curioso ainda achou a forma com que se cumprimentavam essas pessoas. Um deles dizia “Louvado seja Jesus Cristo!” e o outro respondia “Para sempre, amém”. Bávaros e poloneses eram bastante católicos. O que não significa que se dessem bem. Zöller observou que moravam em ruas separadas. Segundo ele, essa mistura de povos trazia “inevitáveis chispes”.
E a história trazida à luz pelo Pai Fritz tinha um valor histórico tão grande que achei por bem continuá-la na semana que vem.