Henrique Fendrich (Crônica de São Bento)
Jornalista são-bentense residindo em Brasília/DF
Você já deve ter ouvido falar muito bem sobre a arquitetura de Brasília - arrisco dizer que você nunca ouviu falar mal. E há motivos para isso. Temos prédios e monumentos realmente bonitos. Apesar disso, tenho lá as minhas broncas com o Niemeyer. Acho algumas construções bastante esquisitas. O Museu Nacional, para mim, é um óvni, por exemplo. E que só pode ser alcançado através de uma terrível rampa. No Teatro Nacional há uma rampa em curva sem proteção na parte debaixo da lateral. Uma criança cairia ali. É claro que tudo isso é compensado diante de obras como a Catedral de Brasília - essa sim, impressionante.
Mas o Niemeyer não anda mais projetando coisas por aqui. E em mais de 50 anos, muita coisa mudou na nossa arquitetura. Brasília é uma cidade plana, mas hoje quase não se vê mais o horizonte. Quem reclama é o escritor Milton Hatoum, de Manaus, mas que morou na cidade por alguns anos. Milton estudou arquitetura. Esteve aqui em Brasília mês passado e parece ter se assustado.
Ainda no avião, Milton olhou pra baixo e reparou num grande punhado de arranha-céus, todos enormes, um ao lado do outro. Perguntou do que se tratava e informaram que era Águas Claras – o eldorado da especulação imobiliária por aqui. Pois o Milton exclamou então: “Águas Claras? Águas Sombrias, isso sim”.
Eis a sua bronca: do ponto de vista urbano, Milton diz que acabaram com a memória das nossas cidades. Chamou isso que estão fazendo em Brasília de anti-arquitetura. Uma cópia de São Paulo – que, por sua vez, seria uma cópia de Miami. E em Manaus não é diferente: Milton precisa tomar antidepressivo quando volta para lá.
O arquiteto das igrejas
Bueno. Mas falemos de São Bento. Outro dia, a colega Auristela Bauer teve a ideia de criar um álbum com fotos de todas as épocas e de todos os ângulos possíveis da Igreja Matriz – vai rolar até um piquenique com fotógrafos no dia 27 lá no Parque 23 de Setembro. No meio do projeto, surgiu a constatação: a Igreja Matriz de São Bento tem duas cópias. São as igrejas de Antônio Carlos e Campo Mourão. Eu já sabia dessa história, mas não sabia ainda os detalhes do arquiteto que fez as três igrejas.
Fui pesquisar. Trata-se do alemão Simão Gramlich, que chegou ao Brasil por volta de 1922 e foi morar no Rio Grande do Sul. Lá, construiu a igreja de Santa Cruz do Sul. Nos anos 30, fixou residência e montou escritório em Blumenau. E passou a projetar uma inifidade de igrejas na região: Itajaí, Brusque, Rio do Sul, Gaspar, Ilhota, Indaial, Azambuja, São João Batista, além de Passo Fundo. Fez ainda o hospital de Concórdia e a fábrica de tecidos Renaux. Em São Bento, já havia feito nos anos 40 a sede comercial da firma Buschle Irmãos, construída em estilo Art-Decô.
E aí deram para ele a missão de fazer a nova igreja de São Bento. As obras aconteceram entre 1955 e 1958. Muito espertinho, Simão vendeu depois o mesmo projeto para a igreja de Antônio Carlos (construída entre 1960 e 1967) e de Campo Mourão (concluída em 1968). É verdade que nenhuma das duas está no topo de um morro e nem tem uma escadaria como via-crucis, literalmente. Mas que são iguais, ah, são.
Pelo menos não somos ainda uma cópia de Miami.