Henrique Fendrich (Crônica de São Bento)
Jornalista são-bentense residindo em Brasília/DF
Aos quinze de maio de 1879, na Capela do Santíssimo Coração de Maria desta Colônia de São Bento, foi batizada solenemente a Catharina, de cor parda, ingênua, filha natural da negra Balbina, escrava de Manoel Ignácio de Souza, morador no Novo Campestre, distrito desta Colônia. Foram padrinhos Rufino Vidal dos Santos, casado, e dona Mariana Müller, casada. Do que, para constar, fez assento o padre Carlos Boegershausen.
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Aos sete de maio de 1881, às duas horas da tarde, na Capela do Santíssimo Coração de Maria, desta Colônia de São Bento, sem impedimento algum, com licença do dono da contraente, e com palavras de presente e mútuo consentimento, receberam-se em matrimônio Antônio Fernandes de Quadra, viúvo, e Gertrudes, escrava de Francisco de Paula Pereira, e filha natural de Ritta, escrava de Manoel de Bastos, ambos os contraentes nascidos e batizados na freguesia de São José dos Pinhais.
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Aos vinte e três de março de 1886 faleceu na casa do médico Dr. Philipp Wolff, neste distrito de São Bento, Rita, escrava, de 36 anos, solteira, brasileira, do serviço doméstico, cativa de Antônio Carneiro de Paula, morador do Campo Alegre, de tísica pulmonar, e no dia seguinte seu corpo foi sepultado no cemitério católico da sede deste município.
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Esses registros, resumidos, aparecem nos livros da Igreja Católica de São Bento. Eles revelam uma questão que até hoje não mereceu qualquer atenção dos pesquisadores: a existência de escravos na nossa região. Como se vê, eles não pertenciam aos imigrantes – até porque os próprios imigrantes eram praticamente semiescravos na Europa. Os donos de escravos eram todos brasileiros vindos do Paraná. Os brasileiros, embora numerosos, também não são lá muito considerados pela nossa história, então não é de se admirar que não saibamos absolutamente nada sobre os escravos que alguns deles possuíam.
Quando muito, admitimos a existência de um ou outro lá por Campo Alegre. Mas há algum tempo me interessei pelo assunto e desde então já anotei dezoito escravos morando na nossa região – e está faltando gente. Boa parte desse pessoal morava de fato em Campo Alegre. Os escravos de Francisco de Paula Pereira, no entanto, moravam na Estrada Dona Francisca, e o escravo de Thomas Umbelino Teixeira morava próximo ao Mato Preto. Seus proprietários vinham de famílias que há muitas gerações mantinham escravos. Ao se mudarem para a nossa região, trataram também de ocupar alguns dos principais cargos da vida pública – e falo da vida pública de São Bento. Alguns deles, embora donos de escravos, foram inclusive líderes republicanos em nossa cidade.
Se os proprietários estiveram envolvidos em nossa história política, e se esses escravos vinham batizar os seus filhos e traziam as suas noivas para se casar em nossas igrejas, e podiam ser atendidos pelo nosso médico, e ainda por cima podiam ser sepultados em nossos cemitérios, do ladinho dos nossos imigrantes, está mais do que evidente que eles também dizem respeito à nossa história, e não apenas à de Campo Alegre.
Dito isso, tenho a desejar ao leitor um bom Dia da Abolição, e que esteja atento, pois nem sempre algumas cédulas no fim do mês é muito diferente de escravidão.