Psicólogo Clínico Gestalt-terapeuta
CRP 12/07911
No dia 5 de Junho desse ano, em Florianópolis, as psicólogas Josiene Giese, Marcele de Freitas Emerim e Mariana Vidal, abordaram o tema: Sofrimento ético, político e antropológico nas populações LGBT* e as discussões sobre a prática clínica em psicologia.
Questões que vêm ganhando espaços nas mídias, nas universidades, em organizações sociais, nas políticas públicas e no cotidiano das pessoas, tendo em vista que, uma das premissas da constituição brasileira diz respeito à dignidade humana.
Nos consultórios psicológicos, há cada vez mais pessoas que relatam seus sofrimentos, por ventura, da ameaça ou violação de seus direitos, e ou através da exclusão social. Esses discursos se propagam nos consultórios (nas clínicas dos sofrimentos éticos,político e antropológico), quando por exemplo, uma mulher homoafetiva ― (aqui uso o exemplo de uma mulher, pois, evidencia o uso que ainda permeia nos dias atuais, de um sistema que é regido para os homens, entre uma oposição de dominados e dominadores, de uma luta de classes e ou de sexos, contudo, tanto a mulher quanto o homem refletem o esquema da dominação social, da relação opressor/oprimido ) ― é discriminada de alguma forma quando vai a um supermercado, a uma clínica ginecológica, a um restaurante. Nesses casos, pessoas que trabalham com grupos de apoio, acompanhamento terapêutico, e assessoria jurídica, poderiam acompanhá-la a tais lugares e interv(ir), para que não houvesse nenhum tipo de desigualdade por causa de sua orientação sexual.
O assunto mulher, homoafetividade, transexualidade, evoca ainda, representações imaginárias (mitos), como papéis sociais, modelos de comportamento, afetos, preconceitos, moralidade.
Não raro essas pessoas são agredidas fisicamente, quando não, mortas, por sua orientação.
Ainda, a sociedade não está preparada para acolher as diferenças e poder ampliar a autonomia das populações LGBT. Fica evidente quando a questão da identidade sexual é deflagrada em amiúdes preconceitos, posto que, na carteira de identidade de um transexual ainda se coloque o nome de nascimento, o que gera desconforto e a sua exclusão em diversos contextos sociais. Cabe ressaltar João W. Nery**, que é considerado o primeiro transexual homem operado no Brasil. João tirou nova documentação por conta própria para poder se articular socialmente. Com a nova identidade perdeu todos os seus direitos anteriores, inclusive o seu currículo escolar e profissional. Passou então a exercer várias profissões (pedreiro, vendedor, cortador de confecção de roupas).
A realidade não se altera num único momento, em uma única geração, mas as mudanças sócio-culturais vêm se transformando, porém, acompanhadas de heranças arcaicas, difíceis de serem debeladas por completo.
Pensamos juntos naquele dia, o que faz uma mulher ser mais mulher do que a outra? Ou um homem mais homem do que o outro? Será que uma mulher é aquela que pinta as unhas e a outra é menos mulher porque não usa saia, e o homem é mais homem porque assiste futebol e o outro é menos homem porque redefine as sobrancelhas?
“Eis o que disse o Papa Pio II da prisão de Joana D’Arc (...) ela foi examinada para saber se servia de sortilégios ou de alguma ajuda diabólica, ou se ela se afastava, de uma maneira ou de outra, da religião. Não se revelou nela nada que permitisse condená-la, à exceção das vestes de homem que ela trazia. E também não se estimava que isso merecesse a pena capital. Enviada de novo a sua cela, ameaçaram-na de morte se continuasse a usar vestes de homem...
... e seus carrascos não lhe trouxeram senão vestimentas masculinas.”
(Pernoud)
Será que é a vagina que faz uma mulher ser mulher ou o pênis que faz o homem ser homem?
E a questão da identidade... Será que é aquilo que está na carteira de identidade ou não seria por aquilo a qual nos identificamos?
Esses motes foram levantados e ao final do debate não conseguimos fechar todas as questões, contudo, abrimos espaços para novos diálogos, diálogos diversos.
O trabalho clínico das psicólogas em questão é do acolhimento das totalidades presentes(das diversas formas) de cada ser humano, com um modelo de ação psicoterápica a cada consulente em específico.
*LGBT - O termo atual oficialmente usado para a diversidade no Brasil é LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros).
**É possível ver algumas de suas entrevistas como convidado em programas de televisão.