Sergio Lima de Almeida, 52 anos, é chefe do serviço de cirurgia cardíaca do SOS Cárdio, hospital privado com o maior movimento decirurgias cardiovasculares por convênios de Santa Catarina. A equipe que coordena há quase 20 anos soma 10 mil procedimentos na área de cirurgia cardiovascular em diversos hospitais. Ele chefia também uma das equipes do Instituto de Cardiologia de Santa Catarina, principal centro do Estado no atendimento pelo SUS. Com grande experiência no tratamento de idosos, aborda o tema em congressos nacionais e internacionais.
Recentemente fez uma viagem à Alemanha, referência mundial em procedimentos cardíacos, para aprimorar técnicas menos invasivas que começaram a ser implantadas há pouco tempo no Estado. Almeida destaca três delas: Valve in valve, nova válvula cardíaca e bombas implantáveis – esta ainda em implementação. Com tecnologia de ponta, elas diminuem riscos de cirurgias, principalmente em pacientes com idade avançada ou com contraindicação. Em entrevista ao Diário Catarinense, o cirurgião fala sobre os avanços e principais desafios da sua área de atuação.
Seu foco principal é o tratamento de idosos. O que é fundamental para evitar problemas cardíacos e ter uma boa recuperação nesta faixa etária?
A prevenção de doenças cardiovasculares deve começar desde a infância, com hábitos saudáveis de vida. Os idosos que chegam à idade avançada, às vezes apresentando apenas uma doença aterosclerótica cardíaca [doença inflamatória crônica que leva à formação de placas de gordura dentro dos vasos sanguíneos], mostram-se pessoas biologicamente mais fortes, pois superaram várias etapas da vida em que há incidência de outras doenças. Assim, são pessoas que muitas vezes se apresentam para cirurgia com apenas um problema, ou seja, a idade não traz um acúmulo de doenças. Estes pacientes costumam superar a cirurgia muito bem, com ótima evolução.
Quais foram os grandes avanços no tratamento cardíaco para idosos nos últimos anos?
Os grandes avanços estão nos métodos de avaliação pré-operatória, que nos permitem estratificar muito bem o risco cirúrgico dos idosos. A idade por si não representa um grande fator de risco isolado, mas sim o que ela traz de doenças associadas. Outro grande ponto foi a evolução das técnicas e drogas anestésicas. Os cuidados do pós-operatório, na UTI, sem dúvida representam uma grande contribuição no resultado da cirurgia. A integração entre a parte clínica, cirúrgica e UTI com certeza representa o grande pilar do tratamento e do bom resultado para os pacientes desta faixa etária.
Como SC está no cenário nacional em cirurgias de coração?
Há alguns anos, na necessidade de assistência médica, as pessoas que tinham condições financeiras buscavam os grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Atualmente, o cenário é outro. Santa Catarina possui profissionais altamente qualificados, hospitais bem equipados e resultados excelentes, equiparados aos grandes centros mundiais. Um desses resultados levou a um estudo que já foi apresentado em um congresso internacional, em Vitória (ES), e será levado a um novo evento mundial em Londres, em setembro. Fizemos um levantamento da nossa experiencia de 2005 a 2016, quando tivemos 64 pacientes acima de 80 anos submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio (ponte de safena), sem nenhum óbito.
No que Santa Catarina precisa avançar?
O Estado possui excelentes centros de cardiologia, sendo também um Estado que possui um hospital voltado apenas ao tratamento das doenças cardíacas. Os resultados são espetaculares, comparados aos melhores centros mundiais. Evidentemente, necessitamos ainda de uma melhor política de saúde, tanto pública quanto privada, para podermos oferecer a uma maior parte da população todos os recursos que dispomos para o tratamento das doenças cardiovasculares.
Por que a robótica não se confirmou como promissora nas cirurgias cardíacas?
Porque não trouxe o resultado esperado. O alto custo, associado a um tempo muito prolongado de cirurgia, além do fato de não oferecer melhora no resultado, tornaram a cirurgia robótica não atrativa no tratamento de doenças cardíacas. O serviço da Alemanha interrompeu seu programa há mais ou menos três anos, sendo que foi um dos pioneiros a atuar com a aplicação do robô. Eles não viram vantagem alguma nos resultados e interromperam o programa. Mas em outras especialidades médicas a cirurgia robótica se destacou muito e trouxe excelentes resultados.
Como funciona essa nova técnica Valve in valve? Para quem é indicada?
A cirurgia cardíaca e a cardiologia como um todo vêm procurando desenvolver procedimentos menos invasivos, porém, que mantenham o mesmo nível de segurança e eficácia para os pacientes a longo prazo. Com o advento das válvulas implantáveis de maneira percutânea (por meio da pele), passou-se a ter uma terapêutica menos invasiva para aqueles pacientes que apresentam contraindicação à cirurgia aberta. Essa experiência, no Brasil, ainda é pequena. Porém, no mundo vem crescendo com muitos estudos em andamento, tentando demonstrar uma segurança e eficiência nesta conduta. Acredito que isto possa a vir a ser uma tendência crescente no futuro, como mais uma opção de tratamento.
Há também uma nova válvula cardíaca sendo usada. Em quais casos é recomendada?
Começamos em maio a experiência com uma nova prótese para tratamento de estenose aórtica (obstrução da válvula aórtica). A grande vantagem desta prótese é diminuir o tempo de cirurgia, principalmente o tempo de circulação extra-corpórea (quando o paciente fica na máquina coração-pulmão). Importante salientar que a grande indicação está nas cirurgias combinadas, em que há necessidade, por exemplo, da troca da válvula e cirurgia de ponte de safena associada. Nossa experiência aqui no SOS Cárdio é com a prótese intuity, já a implantamos em cinco pacientes, sendo a equipe com maior número de casos no Brasil até o momento.
E as bombas implantáveis, há perspectiva para começo da iomplantação? Quais as vantagens?
As bombas implantáveis para assistência mecânica do ventrículo esquerdo vêm sendo progressivamente mais utilizadas, tanto como terapia de ponte para o transplante cardíaco, mas também como terapia de destino. No Brasil, existem alguns centros que já implantaram algumas delas. Em Florianópolis estamos implantando os protocolos para oferecermos esta terapia. Já contamos com uma equipe multidisciplinar do SOS Cárdio com treinamento realizado nos Estados Unidos. Uma das dificuldades que encontramos no Brasil para o estabelecimento destes programas de maneira rotineira são os elevados custos desta terapia, bem como a dificuldade de obtê-los via planos de saúde.