A decisão do Ibama de manter a multa de R$ 50 milhões contra a Volkswagen por conta da fraude em motores a diesel no Brasil não encerra a crise da montadora no país. Até agora, as investigações se concentravam nas picapes ano/modelo 2011 e 2012, já que a própria empresa havia confirmado que elas contavam com o dispositivo que manipula os índices de emissão. No entanto, a Cetesb testou também duas unidades da Amarok 2014 e 2015 e identificou indícios de que elas também têm algum tipo de dispositivo que altera seu desempenho. Com base nisso, o Ibama determinou que também sejam investigadas picapes vendidas mais recentemente.
A companhia paulista testou sete unidades da Amarok para comprovar a fraude: cinco são ano/modelo 2010 a 2012, enquanto outras duas são 2014 e 2015. O estudo apontou que as cinco mais antigas emitem menos poluentes durante os testes em laboratório do que durante o uso nas ruas, o que confirmaria a fraude. Além disso, o comportamento das picapes 2014 e 2015 “foi bastante diferente das demais”, conforme o relatório da Cetesb. “Os níveis de grandezas foram muito superiores nos três ensaios padronizados no laboratório, o que pode sugerir a existência de algum item de ação indesejável”, continua o texto. “Item de ação indesejável” é o termo usado pelos especialistas para identificar o software que manipula emissões.
As picapes do primeiro grupo (ano/modelo 2010 a 2012) devem atender a um limite de emissão de poluentes menos rígido, que estava em vigor quando foram lançadas. Essas regras fazem parte do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores - o Proconve. Àquela época, o programa estava na fase L4 e limitava as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) por picapes como a Amarok em 1 g/km. Já as mais recentes (2014 e 2015) foram lançadas na fase L6 do Proconve, que limita essas emissões em 0,35 g/km.
Apesar de as regras de emissões terem ficado mais rígidas, os carros mais recentes têm índice de emissão de poluentes “bastante semelhante” ao dos 2011 e 2012, conforme o relatório da Cetesb. Um dos carros chegou a emitir 16 vezes mais óxidos de nitrogênio quando estava rodando fora do laboratório em comparação ao que emitiu durante os testes controlados. Para os especialistas do órgão, “há forte indício de diferenças entre as emissões de NOx para os veículos das fases L4 e L6”. Mas eles pontuam que outros testes deveriam ser feitos com mais veículos recentes para se comprovar esta possível fraude.
À Autoesporte, a Volkswagen do Brasil afirmou que "foi notificada na quinta-feira (23/03), está analisando a decisão e se manifestará oportunamente".
Os pesquisadores também destacam que houve dificuldades para fazer este estudo por conta da pouca quantidade de equipamentos disponíveis nos laboratórios brasileiros para análises como esta. Além disso, há poucos profissionais no país habilitados a conduzir este tipo de teste.Por fim, pontuam que há necessidade de orçamento especificamente destinado para que testes de emissão de poluentes sejam mais frequentes no país.