Foto: Fotograma Studio/Divulgação
Não faz muito tempo, pouco mais de três anos,que um nome catarinense vem aparecendo com frequência em publicações dedesign e arquitetura. Nascido e criado em São Bento do Sul, norte do Estado, Bruno Faucz não teve herança alguma da indústria moveleira, força motriz que alimenta o município e os moradores daquela região há décadas. A lembrança mais remota de seus traços está atrelada à vontade incontrolável de desenhar, sempre apoiado pelo pai.
– Eram [desenhos de] tubarão, dinossauro,essas coisas de criança. Eu cresci desenhando, numa época, entre 10 e 11 anos, passei a fazer cartoon de gibi, criar personagens. Quando cheguei aos 17 tinha uma certeza, escolheria uma profissão na área criativa – relembra.
Design de Mobiliário e Publicidade estavam entre as opções. Passou na primeira e foi estudar na vizinha Rio Negrinho.
Ao começar na universidade observou que os professores vinham da indústria, não eram só teóricos. Opções não faltavam para ingressar numa fábrica não muito longe de casa que lhe daria muito mais do que um salário no final do mês.
– Se quero desenhar móveis tenho que entender como funciona esse universo, a indústria e o mercado, e como o designer está inserido nesse meio – comenta, por telefone, numa tarde quente e seca de inverno. Lá fora, o céu azul quase afronta.
Afrontar não é uma palavra que se encaixaria na trajetória do libriano prestes a completar 30 anos no finalzinho de setembro. Mas não se pode dizer que ele não tenha força de vontade e um certo desprendimento necessário desde sempre para quem busca empreender. Depois de passar alguns anos mergulhado em técnicas de engenharia de produto e circular país afora em uma experiência chamada de momento de compra do consumidor nacional – por meio de conversas com vendedores e gerentes – Bruno queria mais. Queria imprimir sua personalidade numa peça. Enfim, assinar uma ideia desde aquele átomo criativo lá no início, ainda no cérebro, até a concretização maciça, pronta para agregar desejo e sonho na casa de alguém.
Poltrona CavaleraFoto: Divulgação
– Esse tempo em que trabalhei na indústria foi um mestrado e um doutorado. Uma coisa que eu sempre entendi é que para desenhar você precisa ter muita informação. Também precisamos olhar a parte psicológica. Nós consumimos mais por emoção do que por razão. Existe uma parte muito racional dentro do design, você está desenhando, precisa vender, gerar números. Para a indústria interessa se vende. Eu, como designer, preciso provar que com design vende mais – sentencia com a certeza de quem já esteve nos dois lados do negócio.
Quando sentiu que sua figura criativa já não estava tão necessária no processo da indústria, saiu, mudou o rumo numa aposta arriscada. Abriu em casa, onde está até hoje, o escritório homônimo. Era março de 2013. Com um relativo portfólio, gerado em casa nas noites depois do trabalho, começou a apresentar para algumas indústrias, tentando, o próprio, entender qual era o grau de maturidade do que tinha ali.
Buffet MarchêFoto: Divulgação
– Eu também não sabia muito bem quem procurar. Decidi ir atrás do pessoal da mídia especializada, revistas de decoração, arquitetura,design, mobiliário. Pensei: ¿vou tentar chegar nesses caras para ter uma resposta¿. Acabei conseguindo chegar pelas redes sociais e apresentei meu trabalho. Sempre via internet. Fui bolando estratégias de como receber uma resposta, os motivos para ele conhecer o trabalho de um desconhecido – comemora, dando uma espécie de dica para qualquer profissional.
Um bom contato e uma dose equilibrada de insistência operam milagres. Alguns editores toparam publicar suas peças ainda em 3D, recurso no qual se diz viciado. Por e-mail, recebeu o convite para estampar a poltrona Canela no livro Design Brasileiro de Móveis, da editora Olhares, organizado pelo galerista Marcelo Vasconcellos e o designer Zanini de Zanine, com os principais destaques em mobiliário de assento de 1928 a 2013. Figura na publicação ao lado de nomes imortalizados como Irmãos Campana, Joaquim Tenreiro, Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer. Ainda neste primeiro ano em voo solo participou de exposições em São Paulo, Nova York e Paris. Tudo muito rápido.
Poltrona SoloFoto: Divulgação
– As primeiras peças que ganharam espaço na mídia foram as poltronas Canela e Cavalera. Entraram nas melhores lojas do Brasil, foram finalistas de prêmios – comemora o designer que hoje tem mais de 250 produtos de sua autoria.
As parcerias com as fábricas da região começaram a surgir. Com sua experiência, e os equipamentos disponibilizados, sabe até onde pode ir com a criatividade. O que transforma a relação em algo amistoso.
– Sei como funciona o processo de industrialização de um produto. Isso agiliza muito os processos. É muito mais leve para todo mundo que está participando daquilo – reforça.
Bruno foi e segue, literalmente, aprendendo durante o percurso. Quando começou não sabia quem era Sergio Rodrigues e o que ele significa para o design mundial. No meio da entrevista, falamos sobre a obra do mestre. Conto detalhes de uma manhã de 2012, em Timbó, quando dividimos algumas horas enquanto ele conferia de perto a produção de suas icônicas peças por uma indústria local. Sergio era sobrinho de Nelson Rodrigues, mas estava cansado das repetitivas perguntas jornalísticas sobre o parentesco. Bruno também teve um breve encontro com o carioca. Rimos relembrando da união perfeita entre talento e simpatia.
Se uma entrevista é feita de alguns clichês, não há como não perguntar sobre cadeiras e poltronas, temas que sempre surgem num papo com estes profissionais. Tem alguma explicação para essa relação?
– É interessante. Eu adoro poltrona. Essa minha paranoia com poltrona (risos) vem com aquele sonho na faculdade de pensar: ¿daqui 15 anos como eu seria se fosse um designer conhecido?¿ Olhando para todos os grandes nomes, esses caras têm uma poltrona ou uma cadeira como peça ícone. É um produto muito desafiador de desenhar, você está lidando com muitas restrições que não podem ser tocadas. Não é fácil chegar num bom resultado. O produto que eu mais curto desenhar é uma poltrona – revela, ao mesmo tempo em que conta sobre o processo de criação, muitas vezes compartilhado com seus mais de 11 mil seguidores no @brunofaucz no Instagram.
Poltrona VIPFoto: Divulgação
– Passei muitos anos tentando ter a minha definição de design, que não fosse uma definição acadêmica. Então, o que é design pra mim? É a materialização da informação. Existe sempre uma busca por tentar entender o mercado, porque as pessoas compram um produto A ou B. Tudo nasce sempre com uma folha de papel em branco e um lápis. Não gosto de começar no computador. A comunicação do cérebro com a mão é muito melhor – finaliza, respondendo ainda que sua peça predileta é a poltrona VIP. No início, há mais de um ano, nem gostava tanto assim, mas tempos depois, com elogios de outros profissionais, passou a observá-la de outra maneira. Ainda não é um sucesso comercial, mas traz uma assinatura inconfundível. E é só uma parte deste desenho em evolução chamado destino.
http://dc.clicrbs.com.br/sc/estilo-de-vida/noticia/2016/08/bruno-faucz-de-sao-bento-do-sul-imprime-sua-personalidade-no-design-brasileiro-7321949.html